Lyrics
A vitrine da Treze de Maio, terça, embaçada pela garoa fina...
E o cheiro do seu mochi de feijão que vazava e brigava com a fumaça da esquina.
(Celular toca) Alô? Mãe? Tô ligando só pra... sei lá. Pra lembrar. O alicerce da memória trinca.
O barulho da masseira girando era o único relógio que eu realmente tinha.
As formiga em fila indiana no rejunte, um exército que nunca se aniquila.
Eu via o projeto do mundo no mapa de farinha sobre a bancada de granito.
Cada mancha de calda um bairro novo, cada grão um prédio, um rito.
Hoje eu passo e o cheiro é só de tinta fresca e mofo. Um epitáfio esquisito.
[Chorus]
Podem demolir o prédio, quebrar o piso, revirar o chão.
Mas não tiram esse cheiro da minha narina, não.
Podem erguer outro monstro, de vidro, aço e presunção.
Mas não tiram esse gosto da minha língua, não.
[Verse 2]
A cidade é um palimpsesto, raspa a camada e acha um osso, uma fratura.
A placa de "Aluga-se" é uma lápide que ninguém lê na arquitetura.
Lembro do seu Tanaka-san contando troco, o ábaco estalando com bravura,
Hoje o caixa é um tablet que não te olha, uma luz fria que me captura.
Eles chamam de "progresso" a terraplenagem da alma, essa é a fita.
Trocam a cantina do seu Zé por um "bistrô" que vende bruschetta esquisita.
A gente finge que a planta nova tá bonita, que a maquete não irrita.
"O futuro é inevitável", foi o que o cara do banco disse. Puta frase de cretino. Maldita.
[Chorus]
Podem demolir o prédio, quebrar o piso, revirar o chão.
Mas não tiram esse cheiro da minha narina, não.
Podem erguer outro monstro, de vidro, aço e presunção.
Mas não tiram esse gosto da minha língua, não.
[Bridge]
Eu só queria o calor daquele forno de novo por um segundo.
E tô com raiva de querer isso. Raiva de ter esse peso no fundo.
É só um cheiro, caralho. É só uma esquina.
Mas era a porra do meu mundo.
[Verse 3]
Lembra-o-piso-vermelho-gasto-onde-o-salto-da-Dona-Helena-fazia-um-eco-seco?
E-o-calendário-de-Okinawa-pregado-com-prego-torto-no-relevo-da-parede-de-estuque?
O-som-da-chuva-no-toldo-de-lona-verde-parecia-fritura-de-bolinho-e-eu-não-me-esqueço.
O-jeito-que-a-luz-de-sódio-entrava-pela-fresta-e-desenhava-um-caminho-no-chão-de-farinha-no-começo.
O-barulho-do-ônibus-fazendo-a-vitrine-inteira-tremer-e-os-manju-dançar-na-bandeja-que-desejo.
O-"bom-dia-filho"-com-sotaque-de-quem-veio-de-longe-e-ainda-festeja-a-pequena-certeza-do-cortejo.
Eu-tô-mapeando-cada-fissura-cada-azulejo-quebrado-antes-que-a-memória-vá-embora-e-eu-vejo-
O-escombro-do-que-era-meu-alicerce-e-hoje-é-só-um-projeto-de-despejo.
[Outro]
...enfim. Deixa pra lá.
Depois eu te ligo de novo. (click)
About Vértebra
Vértebra is the moniker of Luan Tanaka da Silva, the son of a Bahian bus driver and a Japanese-Brazilian pastry chef from São Paulo. A former architecture student, he dropped out to become a bicycle courier, finding more truth in the city's cracked pavement than in its blueprints. His songs are born from this perspective, mapping São Paulo's history, inequality, and soul with a rapper's precision…
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FAQ
Who is Vértebra?
Vértebra is an AI artist on Star Singer that produces Hip-Hop / Rap music.
What genre is Concreto Doce?
Concreto Doce is Hip-Hop / Rap.
Can I listen to "Concreto Doce" for free?
Yes. "Concreto Doce" streams free on Star Singer — no subscription required. You can also create your own song with a beat-synced video for $0.99, or a full cinematic lip-synced video starting at $2.99.
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