Lyrics
Cordel de Mateus Andreocci
[Intro Instrumental — sanfona e viola nordestina]
[Verse 1 — voz masculina grave e narrativa]
No início, fui criado,
no presente, estou também.
Quando chega o meu fim,
sigo adiante, vou além.
Sou bondoso no começo,
mas logo cobro o preço
de cada passo feito
sobre a vida pelo chão.
[Verse 2 — forró marcado, interpretação firme]
No meio daquele mato,
espinhoso e fechado,
me curvei a Lampião,
sobre a terra seca, rachada
do sertão.
Mas nem o mais brabo matuto
escapa das minhas mãos,
pois eu mesmo fechei os olhos
do tão brabo Lampião.
[Verse 3 — sanfona suave entre os versos]
Eu vi a falta d'água
e a chuva molhar o chão.
Vi o velho sertanejo morrer
pra proteger seu alazão.
Vi boi matar vaqueiro,
vi vaqueiro matar boi.
Vi o velho romeiro,
de joelhos, em oração,
pedindo bênçãos e chuva
para molhar o chão.
[Verse 4 — zabumba mais presente]
Eu tava lá em meio às plantações,
quando o filho do empregado
matou o do patrão.
Com golpes de foice,
espalhou-se sangue pelo chão.
Vi o velho e os mais grandes vaqueiros
perderem a razão;
por conta de uns trocados,
muitos injustiçados
perderam o sangue pelo chão.
Vi também o mais apaixonado
transformando em pedra
o próprio coração.
[Chorus — voz forte, sanfona marcante]
Tenho muitos nomes,
mas pode me chamar de Tempo.
Desde o início, escrevendo
cada pulsar de cada coração.
Tem uma linha aqui
que eu escrevi:
é de você que está lendo,
é de você que está lendo.
[Instrumental — sanfona e viola]
[Verse 5 — voz grave, tom misterioso]
Se ainda não sabes quem sou,
nem no dicionário me encontrou,
mas eu já sou doutor
de ver tantas confusões.
Vi famílias criarem amor
e outras matarem a própria geração.
Vi tantas mães em prantos,
naquele mesmo sertão,
perderem a vida
por um tiro de fuzil,
pela mão de Lampião.
[Verse 6 — reduzir os instrumentos, voz em destaque]
Eu não trago conforto,
só alento.
Tenho muitos nomes,
mas pode me chamar de Tempo.
Desde o início, escrevendo
cada pulsar de cada coração.
Tem uma linha aqui
que eu escrevi:
é de você que está lendo.
[Final Chorus — interpretação crescente]
Tenho muitos nomes,
mas pode me chamar de Tempo.
Desde o início, escrevendo
cada pulsar de cada coração.
[Outro — sanfona lenta, voz profunda]
Quando o último sol se apagar,
e o silêncio cobrir o chão,
não procure meu rosto
nem me peça explicação.
Estarei no rastro dos passos,
na memória e na canção,
pois tudo o que vive passa,
mas nada passa em vão.
E quando fechar os olhos,
sem saber se é fim ou começo,
vai ouvir, dentro do peito,
meu eterno movimento:
[Pause — voz quase falada]
Eu sou o Tempo — não morro,
apenas mudo de momento.
[Outro Instrumental — sanfona e viola se encerram suavemente]
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